Comentaram comigo que a dor agora talvez estivesse um pouco mais branda, mas não é bem assim. Tá certo que não tem desespero nem comoção, mas estou agora mais doída do que estava antes, parece que a danada aumenta com o tempo, não diminui. A ausência fica mais forte, maior, mais contundente. É um exagero de falta, tão poderosa quanto papai.
Viajar para Brasília. Evitei pensar no assunto até onde foi possível. Brasília para mim era território minado, mas me rendi… O avião partiu e eu estava nele.
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Morei a maior parte da minha vida em Brasília, onde cheguei aos 4 anos. Passei minha adolescência nos corredores do Congresso andando atrás de papai. Inventava desculpas para fazer trabalhos escolares na Câmara, realizar uma pesquisa na Biblioteca, usar a máquina de escrever do Gabinete, testar o Mac de Cristina Tavares….
Criança, lembro de frequentar o Clube do Congresso aos domingos e o Clube da Imprensa aos sábados. Nos domingos, eram churrascos com os sulistas Jorge Uequed e Amaury Müller e aos sábados, Chico Pinto e Lysâneas Maciel jogavam vôlei com jornalistas como Carlos Chagas e Flamarion Mossri. Talvez nos finais de semana fosse possível sair por alguns instantes da escuridão que os cercava? Escuridão que levou Lysâneas para os dias frios do exílio na Suíça e que tirou Chico Pinto do nosso convívio por criticar a visita do ditador chileno Pinochet. Chico era solteiro na época e passava muito tempo lá em casa. Eu tinha uns 10 anos e o adorava. Quando foi preso eu tanto fiz que papai me levou para visitá-lo e levar sorvete de chocolate Kibon.
Em 84, logo depois da derrota das Diretas, eu estava no Comitê de Imprensa da Câmara quando me chamaram pela primeira vez de “consensinha”. Numa época em que o consenso não era ainda consensual, vi pelas janelas do comitê as tropas cercando o Congresso e corri para meu pai. Acho que foi a primeira vez que tive medo de verdade – a não ser, é claro, do medo que tinha quando atendia os telefonemas de Lysâneas, que, com uma voz ameaçadora, brincava dizendo ser delegado da polícia federal!
Meu primeiro emprego foi com papai no Ministério da Justiça, minha sala era vizinha à sua sala particular. Eu era tão orgulhosa dessa função que trabalhei de graça meses a fio. Tranquei o curso de letras na UnB para viver aquele ano junto dele. O ano anterior, da campanha de dr. Tancredo, já havia sido um ano de deslumbramento para mim. Escondido de papai, matei muita aula para ter a oportunidade de acompanhar, dentro do possível, a arquitetura e a montagem daquela fantástica obra de engenharia política que foi a eleição do colégio eleitoral. Ficava horas na poltrona, ouvindo-o falar ao telefone. Eu AMAVA quando adivinhava com quem falava e qual era o assunto, mesmo quando usava códigos e subterfúgios, hábito esse que ele nunca perdeu. Nunca dizia nomes ou informações importantes abertamente, mesmo anos depois do fim da ditadura. Ele fazia cara de brabo quando eu adivinhava quem era o interlocutor e sobre o que falavam. Ele reclamava, mas sei que no fundo gostava. Era algo só nosso.
Pequenas lembranças, grandes lembranças, lembranças. Esse livro que estamos escrevendo é sem fim. As lembranças são permanentes e cada vez mais vivas. Em Brasília, Recife, Caruaru ou Paris. Papai está dentro de nós, o levamos conosco e ele com certeza nunca nos deixará.
